A necessidade do povo de “abraçar” um salvador e o Homem-Aranha como reflexo dessa posição de salvador da pátria.
Por Juliana Kordash, Ana Clara Gouveia, Giovana Fernandes e Vitor Almeida
Por que os humanos são tão carentes de uma imagem superior?
Os seres humanos são crentes, não da forma popularizada no Brasil que redirecionou o significado da palavra para simbolizar seguidores protestantes. Os humanos são crentes por possuírem e necessitarem da crença em algo superior a eles. Idealizam a imagem de liderança, de necessitar de um cargo acima do seu, seja um orientador, um gerente, um chefe, um herói ou uma imagem divina.
Precisam culpar alguém pelos erros cometidos, pelos desejos, pelas atitudes que não tem coragem de assumir que fazem ou talvez pelas ações não feitas, por não conseguirem estender a mão e assumir que não são capazes de realizar alguma tarefa. Como se retrair na sua insignificância fosse intimidador demais, então, como uma projeção, é buscado no outro uma justificativa para tudo que lhe falta.

Essa crença em alguma liderança superior se solidifica como um sentimento de inspiração, de anseio pela possibilidade de conquistar algo maior que si mesmo. A admiração por alguém faz com que a pessoa busque trilhar caminhos semelhantes à sua adoração, pois desperta o desejo de transformar as virtudes alheias e abraçá-las em sua personalidade.
Mas e quando essa projeção é transformada em algo além? Como uma forma de fanatismo ou perseguição com as imagens de liderança. Um anseio para que uma figura pública erre, para que fale algo indevido e possa ser apedrejada, satisfazendo os impulsos de poder subjugar algo que não aceita em si próprio.
Com a cultura do cancelamento sendo um movimento tão ativo nas redes sociais atuais, não seria de se surpreender que a miníma ação de um recorte de vídeo de 15 segundos, ampliada pelas hashtags e comentários dos usuários, pudesse vir a desmoralizar uma figura importante, como por exemplo, a de um presidente. Ou mesmo o inverso, uma situação em que o engajamento das redes sociais elevasse a popularidade de uma pessoa, transformando ela numa espécie de salvador da pátria para a nação.

A menos de vinte dias para as eleições no Brasil, e nesse momento, as mídias estão recheadas de campanhas eleitorais dos mais diversos partidos. Mas, nesse meio, uma figura já conhecida ressurge, o do “Salvador da Pátria”, muito parecido com o slogan do partido republicano “Make America Great Again (MAGA)”. E, nesse meio, qual que é o papel desse personagem na opinião pública?
Figuras como Nikolas Ferreira, Jair Bolsonaro e seu filho, Flávio, propagam um panorama do Brasil decadente, perigoso e que a mudança viria por meio de um controle maior e um Estado onipresente, reformulando o mito do Contrato Social, de Rousseau. Além disso, a ideia de trazer privatizações e terceirizar produtos nacionais setoriza e difunde o poder estatal entre figuras do mesmo nicho, essas escolhidas a dedo. Com isso, eles se concretizam no imaginário da população como os únicos páreos a comandar o Brasil com glória.
A figura do salvador também é presente na ficção, mas vem mudado e se flexibilizado a algo mais próximo da humanidade. Peter Parker em “Homem Aranha: Um Novo Dia” traz um novo conceito de super-herói: ao invés do inabalável e justiceiro, ele apresenta uma falha crucial, que o faz chegar em um ponto de ruptura. Quanto mais onipresente está, mais a população deixa de admirá-lo e passa a cegamente venerá-lo por seu papel como “super”, ao ponto de que se torna insustentável a figura do homem-aranha.

Nesse ponto, a admiração que Peter recebe não era mais baseada em seus feitos, e sim por sua mera existência, um fanatismo. É quando, ao final, ele se vê como um humano com falhas e busca reafirmar para a sociedade seu valor por seu serviço. Assemelhando-se ao papel do herói político, em que seu objetivo foi alterado para a glorificação de falas, ao invés do reconhecimento de ações positivas.
O Homem-Aranha surge como esperança, para fora do cinema e páginas de quadrinhos. Em “Homem-Aranha: Um Novo Dia” o cenário não seria tão diferente, a Marvel apresentou nos últimos anos um desgaste com suas produções e o descontinuamento de diversas produções, mas como sempre, aparece ele, o homem-aranha, e os salva como um herói.
Essa característica, a resiliência que inspira no outro, talvez seja uma das mais importantes do personagem. No entanto, essa foi uma lição que Peter demorou para aprender. Ele perdeu tudo, deixou aquilo que mais o fazia humano para trás, para cumprir uma promessa feita a sua tia. Esse Peter tem um lema diferente do tradicional “com grandes poderes vem grandes responsabilidades”, nessa perspectiva a proximidade fica menor, mais pessoal, talvez para abordar uma outra face do personagem que conversa com toda a solidão que o filme aborda.

Agora Peter é homem e aranha, retornando a sua imagem de figura de admiração, não exclusivamente um salvador invencível ou alvo de idolatria. Quando a figura de herói está desassociada ao povo, perde-se o valor do seu conhecimento, uma vez que se assemelha a estereótipos e achismos, com uma estratégia de alienação antes de reconhecimento de melhorias.
“Quando você ajuda alguém você ajuda todo mundo”. Parece bobo, porque é simples, mas não tem coisa mais homem-aranha que isso. Ele é um amigo para aqueles que estão só. não é um político que fica acenando por aí, nem um ser quase divino, nem um protetor distante. Ele quer estar próximo, garantir que você seja entendido como ele não foi e amado como ele é.
Arriscaria dizer que nenhum outro personagem possui a sutileza do Peter Parker.
Arriscaria dizer que as projeções do povo e em quem está sendo depositada sua admiração é de extrema relevância no cenário político atual.

Saiba mais sobre:
O personagem Homem-Aranha foi criado por Stan Lee e Steve Ditko e apareceu pela primeira vez em 1º de agosto de 1962 na revista Amazing Fantasy #15, da Marvel. A própria Marvel identifica essa edição como a primeira aparição do personagem. Desde então, o herói passou a ocupar diferentes espaços da cultura popular mundial, sendo adaptado para histórias em quadrinhos, séries animadas, filmes, jogos e diversos outros produtos.
Embora já fosse conhecido antes, o personagem ganhou notoriedade com sua chegada aos cinemas em 2002, no filme dirigido por Sam Raimi e protagonizado por Tobey Maguire. A produção transformou o personagem num fenômeno cinematográfico de grande alcance. Nos Estados Unidos, o filme estabeleceu naquele momento o maior fim de semana de estreia da história do cinema, enquanto sua arrecadação mundial ultrapassou 800 milhões de dólares.
No Brasil, esse impacto também foi bastante expressivo. Em seu fim de semana de estreia, o Homem-Aranha levou cerca de 1,3 milhões de espectadores a mais de 600 salas de cinema do país, tornando-se, naquele momento, um recorde de lançamento no país. A repercussão demonstra como a chegada do personagem às telas ampliou seu alcance para muito além dos leitores de quadrinhos.

A partir desse período, o Homem-Aranha passou a ocupar cada vez mais espaço no cotidiano público, especialmente entre crianças e adolescentes. Além dos filmes e das animações, sua imagem passou a aparecer em brinquedos, mochilas, cadernos, roupas, garrafas e diversos outros produtos. Essa presença constante contribuiu para que o personagem ultrapassasse o espaço cinematográfico e se tornasse reconhecível por diferentes gerações.
Esse processo de notoriedade também pode ser observado na quantidade de produções realizadas ao longo dos anos. Depois do primeiro filme da trilogia de Sam Raimi, o personagem ganhou novas versões no cinema com Andrew Garfield e, sucessivamente, Tom Holland, além das animações do Aranhaverso. Dessa maneira, o Homem-Aranha deixou de estar associado a uma única representação e passou a ser reinterpretado em diferentes momentos e pessoas, mantendo sua presença na cultura popular.

Confira a timeline das aparições do Homem Aranha nos multiversos: https://cdn.knightlab.com/libs/timeline3/latest/embed/index.html?source=v2%3A2PACX-1vTHL5ijRziSwUJV4Iy87VCJHFfY-pvFyj0jvRSqemqQrXWshhTCmkq5F194-tfp5LuBP1HACriGuCQo&font=Default&lang=en&initial_zoom=2&width=100%25&height=650
Trailer: