A trajetória do diretor Gregg Araki na indústria do cinema

Da provocação underground ao reconhecimento cult: a trajetória de quase quatro décadas de Gregg Araki como voz essencial do New Queer Cinema.

Grupo: Anabel Cabral, Arthur Wilians, Gisela Wendtt, Vicente Barbosa.

Se existe um diretor capaz de transformar angústia adolescente, sexualidade e apocalipse em estética pop, esse diretor é Gregg Araki. Nascido em Los Angeles em 17 de dezembro de 1959, filho de imigrantes japoneses, Araki cresceu em Santa Barbara e passou pela universidade dupla que definiria sua formação: graduou-se em Cinema pela UC Santa Barbara e fez mestrado na prestigiada School of Cinematic Arts da USC. Foi lá, no início dos anos 1980, que absorveu influências de Fassbinder, Jim Jarmusch e John Waters, nomes que explicam boa parte da irreverência visual que carregaria pela carreira.
Araki é hoje reconhecido como uma das vozes centrais do New Queer Cinema, movimento que ganhou corpo no Sundance de 1992 e reuniu diretores como Todd Haynes, Isaac Julien e Marlon Riggs na tarefa de colocar identidades LGBTQ+ na tela sem filtro, sem pedido de desculpas e sem verniz de tragédia redentora. O estilo de Araki dentro desse movimento é reconhecível: narrativa fragmentada, trilha sonora alternativa, humor ácido e uma constante sensação de que o mundo está, literalmente ou emocionalmente, acabando.

A trajetória, filme a filme

Three Bewildered People in the Night (1987) Seu longa de estreia, feito com um orçamento minúsculo e câmera praticamente estática. Narra um triângulo amoroso entre uma videoartista, seu namorado e um amigo gay. É o primeiro esboço dos temas que o acompanhariam: fluidez sexual e relações fora do convencional.

The Living End (1992) O filme que o colocou no radar internacional. Acompanha dois homens HIV positivos em fuga após um assassinato, num road movie raivoso que capturou o espírito de urgência da comunidade gay em plena crise da aids. Estreou no Sundance e é considerado um dos marcos fundadores do New Queer Cinema.

Totally Fed Up (1993)* Primeiro capítulo da chamada Teenage Apocalypse Trilogy. Um retrato fragmentado, quase documental, de um grupo de jovens queer em Los Angeles, lidando com amor, rejeição e a sensação de não pertencer a lugar nenhum.

The Doom Generation (1995) Segundo filme da trilogia. Um road movie violento e sexualmente carregado sobre um trio adolescente em fuga, cheio de sangue, tédio existencial e crítica à América dos anos 1990.

Nowhere (1997) Fecha a trilogia com um dia na vida de adolescentes de Los Angeles, entre festas, drogas, sexo e alienígenas, um “Beverly Hills 90210 com ácido”, como a crítica descreveu à época.

Splendor (1999) Uma comédia romântica não convencional sobre uma mulher que vive um relacionamento a três. Marca uma virada mais leve na obra de Araki, ainda que sem abandonar o desvio das normas.

Mysterious Skin (2004) O ponto mais alto de sua carreira segundo crítica e público. Baseado no romance de Scott Heim, entrelaça as histórias de dois jovens cujas infâncias foram marcadas por abuso sexual, tratando o trauma com uma sensibilidade rara. É o filme que consolidou Araki como um autor capaz de ir muito além do choque estético.

Smiley Face (2007) Uma comédia stoner protagonizada por Anna Faris, sobre uma atriz desempregada que passa o dia sob efeito de brownies de maconha. Um respiro mais escrachado dentro da filmografia.

Kaboom (2010) Retorno ao tom apocalíptico-adolescente, com ficção científica, conspiração e sexualidade fluida. Foi exibido em Cannes e recebeu o primeiro Queer Palm da história do festival.

White Bird in a Blizzard (2014) Drama psicológico estrelado por Shailene Woodley e Eva Green, sobre o desaparecimento misterioso de uma mãe e os efeitos disso na filha adolescente.

I Want Your Sex (2026) Seu próximo longa, ainda em fase de lançamento, confirma que o diretor, mesmo décadas depois de Totally F***ed Up, continua ativo e fiel ao próprio universo.